Preparava-se para este ano uma trilogia que pretendia continuar a pesquisa artística sobre a cultura do medronho, numa fórmula mais completa que, desta vez, aconteceria em três diferentes tempos e espaços da serra: a APANHA, incursão em plena serra, entre medronheiros, sobre o trabalho duro da colheita, com as canções e as merendas; a FERMENTAÇÃO, sobre a primeira transformação do fruto e, por fim, a DESTILA, acompanhando a destilação, última transformação que corresponde à passagem do fruto sólido ao seu estado líquido passando pelo vapor. Tudo isto a acontecer em destilarias da serra onde o projecto ainda não tinha chegado.
Entretanto, aconteceu o grande fogo na Serra de Monchique.
Tudo parou.
Tudo mudou.
A revolta, o luto e a certeza de que na serra por onde o fogo lavrou dias a fio, pelo menos 4 anos terão de passar até voltar a haver medronhos nas suas encostas. Fomos então com os autores visitar a serra e falar com as pessoas. Tomámos a decisão conjunta de continuar a falar do medronho que agora já não existe. Participar com o nosso estar teatral no luto da população. Criámos assim a ideia de construir dois momentos que poderão falar do medronho que desapareceu nas chamas e do medronho que ainda existe por ter sido salvo do fogo. Esta primeira peça passar-se-á no epicentro da catástrofe, sendo que a segunda acontecerá em Marmelete que escapou ao fogo, em duas destilarias onde ainda há medronho.
A história do Romeu e Julieta Monchiquense escrita por Sandro William Junqueira voltará a habitar o Alferce. A família Monteiro, Manuel Monteiro, o pai que nunca conhecemos e Ezequiel Monteiro, o filho, contarão a sua história do fogo.
Afonso Cruz escreve para o outro lado, onde o medronho ainda cresce mas onde também a energia e o percurso longo da destila do medronho poderão desaparecer de um momento para o outro.
O importante é não esquecer.
DIRECÇÃO ARTÍSTICA: Giacomo Scalisi
TEXTO: Sandro William Junqueira
INTERPRETAÇÃO: Pedro Frias e António Fonseca